Terça-feira, 12 de Junho de 2007
Paris


Passávamos estes dias na minha cidade. Aquela que especiais circunstâncias fizeram minha. Os bairros (sou uma pessoa que gosta de cidades subdivididas em bairros com vida própria e características inconfundíveis) que acordavam e adormeciam respeitando as fronteiras entre as vidas dos que tinham escolhido cada um deles para morar ou passear-se.
As livrarias, enormes, e colecções intermináveis de livros de bolso que conferem (a ingénua e quase ridícula) convicção de que não se está a deixar por lá uma quantia ofensiva; as pastelarias, sempre requintadas e pictóricas como se de ourivesarias antigas se tratasse; os museus e as salas intermináveis -- que os de nós mais obsessivos da metodologia da viagem dividem por dias, consoante a época e o estilo para os quais estão, depois de acordar, mais virados; os restaurantes, bons para quem conhece os certos, magníficos para quem possa pagar os especiais, lamentáveis para quem não tenha mais do que um guia American Express por referência; as igrejas e capelas entre o sumptuoso e o acolhedor, como pousadas cristãs que acolhem os corpos cansados de todos, mesmo os não crentes, mesmo os homens e mulheres de outras preces e orações, mesmo os carentes de escrúpulo.
As avenidas largas cujas margens do trânsito alternam entre ser ocupadas por árvores (senhoras de sombras providencias e idílicas) e lojas de criadores que fazem da moda uma forma de arte tão acima do comum dos mortais como outra arte qualquer.
Esta não era aquela cidade de mais ninguém. Não daquela forma, não aqueles específicos e concretos lugares (como aquela livraria empoeirada onde nos perdemos tantas vezes um do outro que desistimos, por fim, de nos encontrar até que fosse hora de sair levando mais peso nos braços do que no corpo de cada um; ou aquela sapataria onde fui depois de te ter depositado na loja de cds mais próxima com um “volto já” que durou duas horas e sete caixas de sapatos que pagariam a próxima viagem que não chegámos a fazer).
Quando, há algum tempo, num raro momento de esperança na longevidade e sobrevivência, nos perguntávamos onde iríamos de férias, achei que terias lido nos meus olhos (aqueles opacos) que já tinha escolhido aquelas ruas. Sem ti. Não pelo lugar comum de não regressar aos sítios onde tenhamos sido (ficcionalmente) felizes, mas porque os de nós que têm alma de viajante (embora não de nómada) sabem bem quando é altura de abandonar uma pessoa e de voltar a uma cidade.


publicado por Laura Abreu Cravo às 11:55
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Comentários:
De LAC a 19 de Junho de 2007 às 11:50
obrigada a todos. E sim, vão a Paris, e voltem lá, e tornem a ir, sempre que possam.


De sérgio alcântara a 13 de Junho de 2007 às 22:00
Ainda agora de lá saí e já para lá voltava...


De Ana Cláudia Vicente a 13 de Junho de 2007 às 15:52
Nunca fui a Paris, estou a guardá-la, não sei bem porquê ou para quê. Passei só para dizer que este é o post de que mais gostei desde que leio o Mel com Cicuta (e sim, leio-o desde que ele era branco com títulos cor de mel).


De Sophis a 13 de Junho de 2007 às 00:50
Bem escrito, sentido, com alma.


De cristina ribeiro a 12 de Junho de 2007 às 13:26
Muito bonito!


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