Domingo, 29 de Outubro de 2006
Promete-me
Pouco antes de morrer obrigou-me a uma única promessa: Que seria feliz.
Triste e lacónica, perdida na aflição de quem, aos 12 anos, conhece a finitude dos que mais ama, balbuciei que sim. Que prometia. Que ia ser feliz.
Mais do que movida pela noção cristã de que não se nega um pedido no leito de morte— que na altura me era ainda meramente figurativa e hollywodesca—assenti a com ingenuidade de quem não percebia o verdadeiro alcance daquele pedido.
A felicidade não decorre do mérito, empenho ou esforço. Estou cada vez mais convencida que a felicidade só está ao alcance dos que vivem na ausência da angústia ou dos que, quando a tenham presente, têm à sua volta todas as ferramentas que permitem relativizar e diminuir os seus efeitos.
A ausência de angústias pressupõe uma de duas coisas: (i) a resolução da angústia pela eliminação da causa ou (ii) o total e originário desconhecimento do que possa originar esse estado de alma, a incapacidade de enxergar determinados factos tidos como geradores de angústia.
Ora, o primeiro caso é de difícil alcance, porque, no mais das vezes, não está na nossa disponibilidade afastar os motivos e causas das nossas inquietação. E o segundo, enfim, é um bocadinho como preferir ser cego só para não ver as telenovelas da TVI.
O certo é que em nenhum dos casos a libertação ou ausência da angústia depende exclusivamente (ou sequer minimamente) do livre arbítrio. Ora, a felicidade, quando se é assolado pela condição de angustiado é muito mais trabalhosa, ou mesmo inalcançável.
Não devemos prometer coisas que não sabemos se podemos cumprir.
Foi também ele, que no leito de morte me arrancou esta promessa, quem me ensinou este mandamento. E tenho a certeza que fez ambas as coisas pelas mesma razão.


publicado por Laura Abreu Cravo às 20:42
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Laura Abreu Cravo
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