Terça-feira, 29 de Agosto de 2006


Quando começo a ver reflectidos no espelho (na pele e no semblante), aqueles sintomas de estagnação que há semanas se vêm mostrando (distúrbios de sono, espírito inquieto) percebo que cheguei a mais um ponto de ruptura. Não sendo — segundo a opinião mais avisada, ou, se preferirmos, o investidor institucional— portadora de um espírito sereno e fácil, nunca consegui mudar por processo evolutivo. Mudança é, por estes lados, sinónimo de revolução e experiência dolorosa (o que, suspeito, explica em larga medida aquilo que sou e em que acredito no que respeita a convicções político-sociais).
Desde sempre que os cheiros me transportaram para situações passadas (comidas da infância, a cera das mobílias casa das avós, o bolo de ananás e mel da tia, os sacos de alfazema nas gavetas da cómoda da mãe, o after shave do pai quando me vinha dar um beijo antes de sair para o trabalho…).
Hoje, a pretexto de um frasco quase vazio, fui tentar comprar um perfume à hora de almoço. O que trago acompanha-me (intermitente mas solidamente) há vários anos, pelo verão. Traz muita tralha agarrada, e, cada vez que o ponho, antes de sair de casa, vejo caras e sorrisos passados (uns mais que outros), torno a ouvir trechos de conversas (algumas áridas outras apenas nossas…). Pior, mesmo, só no primeiro dia em que o torno a usar depois de um longo Inverno. É como se se abrisse um álbum de fotografias com cheiro e textura, é, quase sempre, como uma paulada na nuca, das que não doí mas nos deixa atordoados.
Não deixa de ser estranhamente egocêntrico que alguém recorde momentos passados, não pela recordação do perfume da pessoa com quem, à época, estava, mas pela reminiscência que ela própria usava na altura. Acho que isso dirá muito (senão tudo) sobre a minha capacidade de manter relações emocionais sérias.
Hoje decidi mudar de perfume, e, depois de seis meses em busca do finalmente eleito, quando me preparava para trazer aquela espécie de caderno em branco, não consegui. Percebi que ainda não estou preparada para abdicar dos sítios onde o perfume antigo me leva, a cada nebulização. Mas daqui a uma semana volto a tentar. Porque, ao contrário do que dizia uma música reles de época, recordar não é bem viver.


publicado por Laura Abreu Cravo às 15:21
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Laura Abreu Cravo
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