Quinta-feira, 11 de Março de 2010
Uma questão de justiça e não de saias

Agora que sobrevivemos todos à esmagadora grandeza do dia, deixem-me dizer umas coisinhas sobre o dia da mulher. Eu percebo que o dia da mulher exista e faça sentido numa tentativa evangelizadora das culturas que tratam as mulheres como seres humanos de segunda. Nesses casos, não tão raros quanto seria desejável, percebo até o feminismo radical e a queima de roupagens intimas.

 

Aquilo que me deixa com os nervos em franja, é uma geração de furiosas feministas que vive  e toda a vida viveu protegida na redoma da cultura ocidental e burguesa, mas que passa o dia a guinchar-me aos ouvidos que é muito mulher (obrigada, mas passo) e que é de si e não precisa dos outros e dos machos e rais-parta-os-reaccionários e que as mulheres de direita (que não estão para berrarias) são só mais umas que — coitadas — são assim a dar para o acéfalo e foram formatadas para acreditar na sua própria diminuição sob a forma de cultura.

Primeiro, sempre desconfiei muito das pessoas que sentem necessidade de gritar muito para afirmar os seus propósitos, depois, sempre encarei com naturalidade e prazer o facto de ser mulher, mas nunca senti necessidade de fazer disso uma questão central da vida de alguém que não de mim mesma.

Já tive oportunidade de dizer aqui o que achava sobre o inefável sistema de quotas, e parece-me que, num país e numa sociedade como a portuguesa, festejar o dia da mulher com grandes cânticos diz mais sobre a nossa parca noção do ridículo do que sobre a nossa noção de igualdade.

Falar-me-ão da violência doméstica em Portugal, da necessidade de reformar mentalidades e promover a igualdade. O problema é que a violência doméstica não é um problema de igualdade, é um problema de justiça. De termos um sistema judicial lento e inoperante, que permite a permanência dos agressores junto das vítimas e cria uma consciência de absoluta impunidade legitimadora do agressor. Mas isto, caros leitores, não se resolve com dias em que nos gritam parabéns logo de manhã só por termos um útero. Resolve-se com uma reforma profunda do sistema penal.

O dia em que os filhos da mãe que tratam as mulheres como sacos de pancada apodrecerem na cadeia e forem arrastados para uma cela sem ter tempo sequer de lhe dar mais um enxerto de pancada para despedida, fará mais pelas mulheres do que todos os soutiens queimados deste mundo.



publicado por Laura Abreu Cravo às 10:48
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Quinta-feira, 4 de Março de 2010

Não gosto de ter de admitir que me enganei em relação a uma pessoa, mas, às vezes, isso acontece. A bem da verdade, creio que não cheguei, de facto, a estar enganada, porque isso pressupõe a existência de um erro. Não houve erro nenhum, mas tão-só uma análise continuada de risco.

 

Digamos que, confrontada com uma criatura na qual, à partida, vislumbrei aptidões mais do que suficientes para vir a comportar-se pobremente, escolhi correr esse risco. É uma forma de defesa como outra qualquer: identificar o perigo e escolher viver com ele ao lado para poder monitorizar os avanços e recuos, analisar as estratégias e (em segredo) divertir-me infinitamente com a mendicidade e falhanço de cada um dos planos ineptos. Os vermes nunca serão capazes de identificar a sua improficiência para passar de ladrões de galinhas a génios do mal. Até para reconhecer o absoluto falhanço é preciso ter capacidades cognitivas que não estão ao alcance de todos.



publicado por Laura Abreu Cravo às 12:06
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Laura Abreu Cravo
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