Sábado, 18 de Novembro de 2006
My funny Valentine IV
Chovia como se o mundo fosse acabar. Ela tinha desistido de correr ou de esperar, abrigada, que a violenta chuvada passasse. Estava encharcada e tudo se resolveria em casa, dali a 100 metros, com um banho quente que lhe levasse o frio da chuva e o desalento da semana.
Passava da uma da manhã e cruzava aquele caminho tão comummente animado, durante os dias, pela rotina do bairro. Constantemente enganada por uma miopia que teima em não resolver, só o reconheceu quando ele já estava demasiado perto. Passeava o cão que a reconheceu imediatamente e lhe foi lamber as mãos enquanto ela lhe fazia festas. O cheiro dela era-lhe familiar, mesmo tendo mudado o perfume a que ele (e o cão) estavam tão habituados. Lembrou-se das vezes em que, deixando-o adormecido na cama ia para a varanda ver o mar e beber o chá preto que ele , sem nunca admitir, só mantinha na despensa por causa daquela hóspede ocasional. E tantas dessas vezes, aquele simpático animal lhe tinha ido aquecer os pés descalços, sentando-se aos seus pés naquela varanda que emoldurava o mar deles.
Olharam-se com a falta de à vontade de dois estranhos que acordam juntos. Fizeram perguntas de circunstância sobre as famílias, os trabalhos, e os (poucos) amigos comuns. A chuva tinha parado. Ela continuava encharcada e ele não estava muito melhor. Ela sabia que era uma questão tempo até que o joelho doente dele começasse a ressentir-se daquela chuvada e o deixasse bastante limitado e indisposto durante uns dias. Era a segunda vez que partilhavam uma tempestade embora tenham vivido muitas outras. Lembraram-se, sem que disso tenham falado, de uma tarde muito chuvosa de um Outubro distante em que tinham decidido ser felizes. Nunca chegaram a concretizar esse plano notoriamente megalómano.
Ele iniciou uma conversa sobre a última vez que se tinham visto. Balbuciou umas reprovações, umas desculpas inquisidoras em tom doce. Ela deixou de o ouvir. O telefone providencialmente tocou. Despediu-se desajeitadamente e correu fugindo de uma chuva que já não caía. Entrou em casa e deixou-se ficar sentada no soalho quente com as roupas encharcadas. Fez chá preto.


publicado por Laura Abreu Cravo às 17:03
link do post | comentar |

Comentários:
De Laura a 20 de Novembro de 2006 às 12:42
o mundo é, de facto, uma ervilha. Mas, neste caso, ainda não sei bem porquê.


De mm a 20 de Novembro de 2006 às 12:37
Laura, portanto... O mundo é estranha e perigosamente pequeno.


Comentar post

Laura Abreu Cravo
Em@il
Na Jukebox Mental

Pesquisar
 
Outros Venenos
31 da Armada
Revista Atlântico
Últimas Entradas

O Mel Com Cicuta acabou

Dos princípios vergados a...

Da falta de saídas profis...

O rei da selva

Vamos lá falar de coisas

O primeiro dia do nosso V...

A Corte

...

Por Deus, façam cerimónia...

Vai haver muita foto nest...

Arquivos

Outubro 2011

Julho 2010

Junho 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Julho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

blogs SAPO
Subscrever feeds