Sexta-feira, 28 de Outubro de 2005
Não se ama alguém que não ouve a mesma canção?
Esta é uma questão que, subdividida noutras, e cada vez mais, tem sido tema de conversa nos diálogos e tertúlias mais intimistas, nos jantares do Bairro, nos jantares do Guincho, e nas chávenas de chá a-toda-a-hora do escritório.
Será que somos capazes de amar e viver ao lado de alguém que sempre viveu numa outra realidade? Será o amor um catalizador tão eficaz que anula diferenças de princípio? De entre todas as diferenças quais são as realmente inultrapassáveis?
Percebi, com o passar dos tempos e algumas nódoas negras emocionais, que o amor não resolve tudo, aliás, no mais das vezes, nem sequer ajuda nada. Serve apenas de analgésico (de qualidade duvidosa) e atordoa-nos os sentidos, permitindo-nos continuar a viver num estado de semi-vigília enquanto tudo o resto se vais desmoronando e perde qualquer sentido. Quando acordamos, geralmente com uma ressaca monstruosamente acumulada, já nem nos lembramos das razões que nos levaram ao patamar onde agora estamos, e que nos parece, apenas, desconfortável, e constrangedor, como uma saia demasiado curta, que não nos cobre o suficiente para estarmos socialmente confiantes.
É este o resultado de tentar combinar pessoas com interesses e circunstancialismos totalmente distintos.
E o que é "a mesma canção"? Não me refiro, naturalmente, a questões financeiras. Mas a coisas muito mais determinantes: Carreira, ambições, valores e interesses culturais. Desisti de tentar adaptar-me a homens que não querem da vida mais do que eu, que me acham excêntrica pela mania dos livros e do jazz, a quem incomoda, mais ainda do que o interesse pela política e economia, as noites passadas no escritório ou à frente do portátil entre 38456 papéis.
Eu não sou só aquilo que sou de alguém, eu sou sobretudo aquilo que faço, e ainda mais, aquilo que quero.
E o que eu quero é um homem que eu possa admirar e que me faça querer estar em bicos de pés para chegar até ele, não alguém que eu tenha de me baixar para tentar perceber.
Descobri, que no amor, ao contrário da vida, tenho vertigens, e raramente gosto do que vejo quando olho para baixo... Pior, o mais certo é perder o equilíbrio e, invariavelmente, estatelar-me...


publicado por Laura Abreu Cravo às 17:05
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Comentários:
De abelha maia a 11 de Novembro de 2005 às 14:12
Concordo com a velha máxima de que os opostos se atraem. Não tem graça nenhuma quando todos gostamos das mesmas coisas, não há renovação nem inovação de temas.
Contudo, terão de existir sempre alguns aspectos em que o tal clic de convergência aparece e nos mostra porque estamos com essa pessoa.
O amor puro e duro não sobrevive sozinho!


De Elaine de Astolat a 29 de Outubro de 2005 às 15:56
nem mais!
vou citá-la no meu blog.
1 beijinho


De Ithaki a 28 de Outubro de 2005 às 17:41
C'est ça!


De Migdar a 15 de Dezembro de 2009 às 10:31
"Chapéu!"


De Hugo de Figueiredo a 10 de Abril de 2010 às 12:25
o amor é uma doença quando nele julgamos ver a nossa cura...


De Carlos a 28 de Outubro de 2010 às 23:32
fiz uma busca com o excerto da letra que é titulo deste post e tropecei neste blog, prendeu a minha atenção e gostei da interpretação do que considera "a mesma canção".

Embora na minha opinião ouvir a mesma canção, literalmente, pode também ser um sinal de sintonia ou o contrario. porque afinal a canção que gostamos de ouvir desperta em nós sentimentos.

Cumprimentos


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Laura Abreu Cravo
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