Quarta-feira, 10 de Outubro de 2007
Essa senhora não mora cá.
Não sei movimentar-me naquilo a que chamam piedade. Não sei sequer como funcionar nesse registo. Não tenho particular simpatia por animais bonacheirões ou criancinhas enternecedoras e gosto dos velhos porque a longevidade lhes deixa vincada na cara uma dureza respeitável. Não me comovo com aleijados ou vítimas de qualquer adversidade que se tenham acomodado à condição, não sou condoída da humanização dos touros, só não uso peles verdadeiras porque estão pela hora da morte (aceito os animais em vias de extinção como fronteira de bom senso) não me deixo enternecer por desistentes, gente que se abandonou. Admiro os que são capazes de, em circunstâncias desfavoráveis e sem heroísmos carnavalescos, devolver-se à normalidade e seguir em frente. Porque ultrapassar obstáculos e matar fantasmas sem, na medida do possível, maçar o próximo, é uma obrigação nossa. O incentivo e o carinho servem-se sem paternalismos e vitimização (em tudo redutores). Dito isto, é óbvio que abraço até fazer doer aqueles de quem gosto, partilho alegrias e tristezas com os meus e tento lembrar, a cada um, que o facto de me ser indispensável, não tendo peso no mundo, faz dele uma espécie de “humanidade gourmet”, com especificidades de paladar não acessíveis a todas as bolsas e não apreciadas unanimemente.  
Mas quando me falam de piedade, a menos que se trate daqueles que perderam até a possibilidade de lutar, fico algures entre a perplexidade e o nojo. E fecho a porta. Essa senhora não mora cá.


publicado por Laura Abreu Cravo às 12:08
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Comentários:
De Vera a 10 de Outubro de 2007 às 20:21
Parabéns pelo blog... pelo destaque!

E, principalmente, pelo texto. A piedade é o pior sentimentos.. a pena... pois ter pena é não acreditar que quem está em dificuldade não é forte o suficiente para seguir em frente. Piedade não, respeito.

Mais uma vez, parabéns!


De artesaoocioso a 11 de Outubro de 2007 às 00:18
Acontece há muitas vitimas que foram esmagadas pela vida sem terem a mínima hipótese de se defenderem.
Uma vida só com vencedores ou temerário (tipo Nietzche ), só poderá ser para alguns.
Qualquer sentimento pode assumir formas deturpadas .
Parece-me complicado


De Baudolino a 11 de Outubro de 2007 às 00:43
Mas quando me falam de piedade, a menos que se trate daqueles que perderam até a possibilidade de lutar, fico algures entre a perplexidade e o nojo. E fecho a porta. Essa senhora não mora cá.

Quem escreve assim, ... !
Ainda bem que mora por cá!


De Pedro Rapoula a 11 de Outubro de 2007 às 10:27
Excelente texto amiga. És tu a resumir-te e àquilo que aprecio na nossa amizade. És tão isso. Somos tão isso. Parabéns! Andas cada vez mais inspirada!

Beijo

p

(menos optimista do que ontem ao almoço...)


De orion a 11 de Outubro de 2007 às 10:42
Piedade não é pena!

Pena não tenho. E detesto complacência. É uma falta de respeito para com as capacidades de cada um. Odeio quem chama de 'tadinhos', para se sentir 'maior'.
Piedade não é isso. Piedade é amor. Piedade não é esmolinha. Piedade é empatia. Arrico a dizer: piedade é coragem.
(serei trucidada por esta opinião?)


De Manuel Martinho a 11 de Outubro de 2007 às 11:57
Má sorte não ser animal em vias de extinção. Daqueles que são mortos a pancadas secas para não rasgar o pelo. Má sorte também ser touro. Ninguém os mandou ser touros. O espectáculo da tortura. E também há as belas lutas de cães. Belas e dignas.
Tomo a liberdade de comentar estes aspectos, até de ser sarcástico, eventualmente insolente, porque concordo com tudo o resto. Profundamente. Em definitivo, o mundo não é a preto e branco, assim como as pessoas.


De Anónimo a 12 de Outubro de 2007 às 17:11
"Admiro os que são capazes de, em circunstâncias desfavoráveis e sem heroísmos carnavalescos, devolver-se à normalidade e seguir em frente. Porque ultrapassar obstáculos e matar fantasmas sem, na medida do possível, maçar o próximo, é uma obrigação nossa. "
E eu admiro quem tal escreve e assim pensa. Quão mais fácil e agradável seria o nosso quotidiano se as adversidades fossem encaradas naturalmente. A verdade é que não há paciência que aguente o egocentrismo reinante, do género "eu sou um(a) desgraçadinho(a), tenho que ver se me trato e entretanto tratem lá vocês (os pais, os cônjuges, os filhos, o Governo) das coisas práticas (trabalhar, pagar as contas e, inclusivamente, usufruir muito do que há de bom à nossa volta)"
E aquelas "alminhas" que nos olham estupefactas quando descontraidamente lhe relatamos qualquer episódio menos agradável da nossa existência.... Hoje, para sermos felizes, só nos podem acontecer coisas boas, ser muito belos, muito ricos, etc., etc. Não se atrevam é a mostrar boa aparência e depois deixar constatar que, afinal, também vos acontecem desgraças...


De Patrícia a 18 de Janeiro de 2008 às 12:02
Que também não queira eu constituir "humanidade gourmet".


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