Segunda-feira, 22 de Outubro de 2007
Cinzas
A cidade cercada e, em tempos, inatingível foi tomada pelos bárbaros. Os archeiros abatidos um a um, os muros  quase totalmente derrubados e as portas, antes imponentes e intransponíveis, jaziam agora nuas e escancaradas. As casas foram pilhadas, as mulheres violentadas, os velhos mortos e os mais novos levados para uma igreja à qual foi ateado fogo. O Palácio, opulento e senhorial, foi invadido pela horda que bebeu sofregamente dos cálices antes de os partir, rasgou sedas e damascos, quebrou dosséis e estendeu as botas fétidas nos delicados canapés.
Não sobrou um único soldado para contar a chacina do surpreendente e avassalador ataque. Semanas depois os ocupantes saíram deixando cinzas, pó e um cheiro forte de carne apodrecida. Era altura de reerguer os muros. Em silêncio.



publicado por Laura Abreu Cravo às 15:01
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Comentários:
De Pedro Rapoula a 22 de Outubro de 2007 às 18:57
O Silêncio. O tal silêncio que deixava todos envergonhados quando se olhavam nos olhos. Sobreviver à tragédia era, no fim de contas, viver a humilhação da derrota. Ao fim de tantos e tantos dias os pesados portões da cidade continuavam abertos. Não havia nada para defender que justificasse a sua urgente reconstrução.
Começaram por limpar as ruas, enterrando os mortos em fundas covas nos limites das grandes muralhas, no sítio mais longe da vista de todos. Em vez de cruzes plantaram uma árvore no lugar de cada morto: pinheiros bravos para os homens e árvores de fruto para as mulheres.
Passado este tempo recomeçaram a construção das pesadas portas da cidade. Quando as fecharam respiraram de alívio por se saberem separados do resto do mundo. Escondiam a vergonha e a desilusão dos olhares indiscretos de todos os que agora se regozijavam com a queda daquela cidade antes impenetrável.
Só depois, pedra a pedra, levantaram as paredes das casas, uma a uma. Sem luxos, sem sedas, sem ouro. Apenas a pedra e a madeira. O regresso às origens. A austeridade humilde dos que precisam da simplicidade para se fortalecerem.
O luto durou um tempo indeterminado. Só quando se ouviu o choro da primeira criança nascida depois do ataque a cidade voltou a respirar de alívio. E nesse dia as árvores no cemitério floriram pela primeira vez. E nas janelas das austeras casas de pedra começaram a aparecer pequenos vasos com rosas de todas as cores. A tristeza dera lugar à esperança. A vida recomeçara. E todo aquele sofremento deu lugar à certeza de que não voltariam a ser humilhados daquela forma.


De ana a 23 de Outubro de 2007 às 11:05
:) cinemascópio. hoje menciono-te no http://portais.blogs.sapo.pt :) e estás nos meus links em http://manuscritos.blogs.sapo.pt ;)


De postscriptum a 23 de Outubro de 2007 às 15:59
É sempre altura do recomeço. A história do homem não é feita dessa forma?
Abraço


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