Quarta-feira, 31 de Dezembro de 2008
Queiram desculpar a falta de entusiasmo (ii)

 

Se excluirmos os anos primeiros em que andava em busca de uma percepção do mundo e do meu próprio nariz e algumas esporádicas excepções, as (até agora) 28 passagens de ano que tive ocasião de viver em pouco diferiram de ano para ano. O que (note-se) neste caso concreto, é uma coisa boa. Desde cedo me lembro que a época começava com os preparativos, que passavam sempre pela compra ou confecção (na modista) de um vestido longo, porque no Funchal a coisa se fazia a preceito. Os homens de fato ou smoking, tudo sem pinga de pretensão porque, naquela noite, ricos e remediados e pobres poupados, todos se vestiam melhor — como se fosse a missa — e a igualdade era nivelada por cima.

A meia-noite era passada em casa, com a família e amigos próximos, o que incluía várias gerações de pessoas que se relacionavam desde sempre e se encontravam, ao menos naquele dia, para saudar os que estavam por vir. Os fogos de artifícios não eram apenas uma atracção cénica e visual, mas 8 minutos de intensa purga e libertação das coisas más do ano anterior, sempre com lágrimas nos olhos, emoção contida e intensa, olhando à vez os que nos são importantes, recordando outros que já lá não estavam. Até cerca das 03:00 a festa fazia-se em casa, com novos, adultos, velhos e crianças, em fatiota aprumada; depois, os adultos saíam para as festas dos hotéis (onde, pela primeira vez, aos 13 anos, o meu avô me apresentou aos rodopios ao som de uma big band, homens de fatos escuros e instrumentos dourados). Com o passar dos anos as idas aos hotéis (e aos seus bailes) foram sendo alternadas com outras festas mais posh, sem que tenham, contudo, saído de moda. As discotecas começavam a acolher os que saíam dos hotéis ou festas privadas cerca das 6 da manhã, como se a noite tivesse acabado de começar. Pelas 11 da manhã, com o sol brioso e desafiador já alto, procurava-se um (outro) hotel que servisse pequeno-almoço aos noctívagos, ainda de vestido comprido e smoking, sob o olhar atónito dos turistas que se tinham deitado antes sequer do início da (nossa) noite e se preparavam para o primeiro mergulho do ano, compondo assim aquela sala numa estranha mistura de glamour já decadente e esborratado com a antecipação dos dias de verão.
Dito isto, desculpem se não me entusiasmo com quase mais nada. Feliz 2009.


publicado por Laura Abreu Cravo às 14:37
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Laura Abreu Cravo
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