Terça-feira, 17 de Novembro de 2009
Sim

Fui, durante anos, contra o acesso ao casamento por pessoas do mesmo sexo. Por uma única razão: não faz sentido dissociar o casamento da adopção. Há um elefante no meio da sala que muitas pessoas do Sim teimam em ignorar e que muitas pessoas do Não querem transformar numa espécie de fim da civilização ocidental. Vamos por partes e devagarinho:

1.       Uma notinha prévia para dois tipos de pessoas:

a.       as que usam o argumento de que os homossexuais já se podem casar, só não podem fazê-lo uns com os outros;

b.       e aquelas que dizem que o país tem assuntos mais graves e, portanto, este não tem a dignidade da urgência que o faria merecer se discutido.

Vão para o raio que vos parta. Todos. Os primeiros porque são imbecis e os segundos porque não têm a mínima noção do que é um contrato social ou, mais ainda, do que é ser cristão. Em que momento da vossa infeliz e ressabiada vida é que olharam directamente nos olhos de alguém que está a tentar discutir uma coisa essencial para a sua vida e tiveram a coragem de lhe dizer:” — Agora não, pá, que estou a tentar resolver os problemas das exportações”.

Caso consigam identificar esse momento — esse no qual a resolução hipotética de um problema vos ocupa mais disponibilidade mental do que o sofrimento de um outro ser humano — chegou a altura de entalarem as mãozinhas na porta do forno (ligado) para terem mais uma coisinha com que se entreter.

2.       O Referendo (que apareceu agora como bóia de salvação dos que vêem a iminência da lei) não me merece muitos comentários além do senso comum:

a.       Referendar direitos de minorias é uma tolice. Bacelar Gouveia iluminou-nos ontem com o caso da independência de Timor-leste, mas talvez fosse útil alguém mostrar-lhe uns bonecos que expliquem que quem votou foi exactamente essa minoria que reclamava o direito e não a totalidade dos timorenses e indonésios. (se alguém tiver dificuldades em perceber esta terrífica equação, por favor avise, temos plasticinas disponíveis).

b.      Ao contrário da questão do aborto — em que conflituavam o direito à vida e a liberdade da mulher (ambos constitucionalmente tutelados) — neste caso não temos qualquer conflito de direitos.

c.       Acresce que a essência da nossa democracia é representativa e não directa. Havendo um sufrágio desta questão nos programas eleitorais relevantes, a devolução desta matéria ao eleitorado (quando não existem bens constitucionais conflituantes) deturpa a lógica da nossa democracia e levaria ao exercício absurdo de exigir referendos para todos os pontos do programa eleitoral do partido que ganhou sem maioria absoluta.

3.       Independentemente da questão jurídica (admito que a maioria dos gays e lésbicas se estejam nas tintas para ela), do que se trata aqui é de uma questão de reconhecimento social, de aceitação de uma situação que, de facto, já existe, da legitimação, pela sociedade, da relação entre duas pessoas e dos efeitos desta decorrentes (se alguém puder fazer a fineza de recuperar aquele argumento delicioso de Bacelar Gouveia sobre as dívidas dos cônjuges, por favor use o e-mail lá em cima, já que raras vezes vi exemplares tão bons do famoso “raciocínio em espiral”). Dito isto, porque é que duas pessoas do mesmo sexo não podem ter o mesmo reconhecimento social do seu amor do que eu? O casamento, que foi consagrado juridicamente para tutelar a família, tem de tutelar as famílias. Todas. Mesmo aquelas que não seguem as ilustrações dos livros da primeira classe.

4.       E, agora sim, não faz sentido, do ponto de vista jurídico também, mas, sobretudo, do ponto de vista humano, conceber um acesso ao casamento que omite a possibilidade de reconhecimento do direito a constituir família adoptando. É certo que a adopção tem como bem único tutelado o interesse da criança e não o direito de quem quer que seja a constituir família, mas, se os homossexuais podem já adoptar sozinhos (e depois viver, de facto, com aquilo que o simbolismo ainda lhes nega), que tipo de bem é que estamos a proteger?

5.       Durante muito tempo vivi esta dúvida, a dos efeitos da parentalidade homossexual numa criança. Angustiava-me dizer àquelas pessoas que não lhes reconhecia um direito porque podiam “estragar” a cabeça das crianças. Resolvi deitar mãos à obra. Fui ler, falei com pessoas, li mais, falei com mais pessoas e fiz o que fazem as pessoas sérias: de toda a informação que recolhi obriguei-me a tirar uma conclusão. É muito fácil ficar a dizer que não ao desconhecido. Mas o desconhecido não é tão desconhecido quanto isso. Basta querer ver e saber. Além disso, pensando no superior interesse da criança interditaria uma mão-cheia de paizinhos heterossexuais com que me fui cruzando vida fora. Gente normalizada, com a cabeça cheia de tralha no sótão, que faz da vida dos outros um inferno e da sua própria um chiqueiro. Não foram educados por homossexuais. Oxalá tivessem sido.



publicado por Laura Abreu Cravo às 18:00
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Comentários:
De João Paulo Magalhães a 17 de Novembro de 2009 às 19:46
o país tem assuntos mais graves e, portanto, este não tem a dignidade da urgência que o faria merecer se discutido

Mas é verdade. Não que discorde da sua opinião (não discordo), mas é uma perda ociosa de tempo/esforço mediático face ao que são os verdadeiros problemas do país. O tempo mediático que temos disponível é pouco e encontra-se em franca diminuição. E o relevo que este assunto tem é nem mais nem menos que uma grande nuvem de poeirada para os nossos olhos.

Aliás, pode constatar que os picos mediáticos do casamento homossexual coincidem precisamente com as polémicas em que se vai metendo José Sócrates. Por exemplo, houve um quando surgiram as primeiras notícias do Freeport. Agora com as escutas é o mesmo. Os nossos media têm a dupla função de Pravda & Circo.


De wer a 19 de Novembro de 2009 às 10:30
numa coisa concordo consigo, não é assunto para ser discutido, é assunto para ser aprovado. andar a "discutir" se se há-de consagrar na lei algo que é um direito que devia ser de todos é perder tempo.

Aprove-se o casamento e já. afinal é "apenas" um contracto e, que eu saiba. os contractos não devem discriminar, segundo a constituição e o bom senso.


De Isa a 17 de Novembro de 2009 às 20:15
cum caneco...


De António Parente a 17 de Novembro de 2009 às 20:22
Vi uma referência ao seu blog no Jugular e decidi vir dar uma espreitadela. Dado o elogio que li na caixa de comentários do jugular julguei encontrar argumentos sólidos e consistentes a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Esperança vã.

Penso que o conteúdo do seu post se pode sintetizar na frase seguinte: "Vão para o raio que vos parta. Todos." Depois disto, não valia a pena escrever mais nada. Sintetizou de uma forma brilhante o argumentário implicitamente utilizado por algumas pessoas que apoiam o casamento entre as pessoas do mesmo sexo.

Já agora, segui um caminho inverso ao seu: comecei por ter simpatia pela ideia e ao longo dos últimos anos fui-me afastando face ao tipo de argumentação dos apoiantes da causa e não é este post que me faz reconsiderar a minha posição, embora saiba que ela é completamente irrelevante.


De Bernardino Alves a 18 de Novembro de 2009 às 18:54
A minha única dúvida nesta questão é a seguinte: o adoptado, i.é., a criança nunca terá opção de escolha? Será que preferiria ter pai e mãe e amor ou ter pai e pai e amor ou mãe e mãe e amor. Teriamos que fazer um inquérito ás crianças adoptadas....


De jonasnuts a 18 de Novembro de 2009 às 22:16
Porque os adoptados, quando o são por parte de um casal constituído por um homem e por uma mulher, têm escolha?

Os adoptados são crianças, e existem uma série de organismos criados e a funcionar para zelar pelo (dizem) seu superior interesse, daí tantas dificuldades em adoptar, porque as bareiras são mais que muitas.

No fundo, aquilo que as crianças precisam é de quem as ame, independentemente de tudo o resto.


De Anónimo a 19 de Novembro de 2009 às 10:33
boa, vamos perguntar a todas as crianças deste mundo que têem pai e mãe se querem trocar para pai e pai ou mae e mae ou tio e avó ou avô e avó ou primo e namorada do primo. acho que algumas diriam imediatamente que sim.

acha mesmo que isso é importante? já vi crianças que tinham "mãe e mãe" e, como é óbvio, eram crianças perfeitamente normais. e sem ideias estranhas, como a sua.


De sem-se-ver a 18 de Novembro de 2009 às 20:58
com sua licença, vou levar para o meu blog. está cá tudo. de bom.


De Miguel a 18 de Novembro de 2009 às 23:53
Ora. Nem. Mais.


De lurdes a 19 de Novembro de 2009 às 00:14
"A arma dos intolerantes é chamar homofóbico a quem, reconhecendo o direito à união dos homossexuais, não dispare foguetes ou tenha dúvidas."
Francisco José Viegas, CM, 18-11-09


De Miguel Marujo a 19 de Novembro de 2009 às 01:39
muito bom, Laura. mesmo; talvez sirva de pouco aos parentes do costume, dizer-me católico.


De Vânia Leça a 19 de Novembro de 2009 às 14:40
Boa tarde

É no meu posto de trabalho, e onde vim descobrir por acaso este blog, que me disponho a comentar este post.
Para começar, acho totalmente descabidos alguns dos comentários aqui apresentados, e é com alguma pena que os leio. Mas como cidadã portuguesa e membro de uma sociedade que ainda vive ofuscada por modelos de vida onde não se incluem temas como o que aqui é abordado, vejo-me no dever de os respeitar. Contudo, senti-me no dever também de apresentar a minha opinião.
Em primeiro lugar, devo assumir desde já que sou totalmente a favor das duas situações aqui apresentadas, nomeadamente o casamento entre homossexuais e a respectiva possibilidade de adopção por parte dos mesmos.
Cada vez mais se assiste à degradação dos valores familiares nas ditas "familias modelo" - leia-se famílias com pai e mãe! Isto é evidente aos olhos de todos...cada vez mais se assiste também a um sem número de pessoas a "optarem" (foi o melhor termo que me surgiu de momento) por seguirem a sua vida como homossexuais sem medo de represálias, e a fazerem as suas vidas completamente "normais! Será correcto privarmos estas pessoas, que apenas procuram a sua própria felicidade e sem prejudicar terceiros, da vida a que têm direito? Confesso que isto a mim me faz muita confusão...
Cada um de nós tem por certo o direito de aceitar ou não esta situação, mas no meu ponto de vista, não teremos o direito de julgar/decidir a vida de ninguém! Será que as crianças que vivem em instituições não iriam gostar da oportunidade de poderem ter uma família, alguém que lhes dê amor incondicional, mesmo que essa família não siga os modelos tradicionais instituídos na sociedade portuguesa? A mim parece-me que a resposta a esta questão seja óbvia.
E que dizer em relação a todos os homossexuais que foram criados em famílias de pai e mãe e no entanto são homossexuais? Em relação a esta questão nem vou comentar mais nada, deixo no ar apenas a dúvida.
Por último, gostaria apenas de manifestar aquele que penso vir a ser o verdadeiro problema da possível adopção por parte de casais homossexuais: as crianças hoje em dia conseguem ser muito cruéis umas com as outras; e aí sim reside talvez o maior problema para as crianças que sejam adoptadas por um casal homossexual! A forma como as restantes crianças irão encarar o facto das primeiras não terem um pai e uma mãe! Essa sim poderá ser matéria de grande problemática! O resto? o resto, meus amigos...baseia-se tudo no amor, o amor que une duas pessoas e que lhes confere o direito de poderem amar uma terceira pessoa como seu/sua filho(a)!
Presumo que com o meu comentário possa vir a ferir algumas susceptibilidades, contudo não podia deixar de exprimir a minha opinião.

Parabéns pelo blog, Laura. Passarei por cá com mais assiduidade.

Vânia Leça


De Raquel Martinho a 20 de Novembro de 2009 às 11:56
Tem razão, Vânia, as crianças conseguem ser muito cruéis.

E não duvido que uma criança criada por um casal do mesmo sexo seja alvo de discriminação por parte das outras por ter uma família diferente. Tal como eu fui por ser filha de um casal que não era casado no papel ("como é que tu nasceste se os teus pais não se casaram?", ouvi eu muitas vezes) e que mais tarde se separou. E isso, hoje, é quase banal.

Mudar mentalidades demora. Mas isso não nos deve fazer desistir.


De MP a 19 de Novembro de 2009 às 14:51
1 - A inexistência de casamentos homossexuais faz parte de um contrato social aceite pela maioria e que se chama Constituição.

2 - Considero que esse reconhecimento social deva ser feito nos mesmos moldes que "naqueles países" que tanto admiramos pelo seu avanço nos costumes, ou seja, com uma denominação apropriada mas que na essência constitua um corpo central dos seus direitos.

3 - Direitos esses que exceptuo a adopção. Parece um elefante no meio da sala aos "coitadinhos" homossexuais ostracizados pela maioria (maioria que em democracia deve ter "algum" valor) que se esquecem das consequencias para os adoptados (intra e extra familiares ao longo do seu crescimento, realçando estas últimas)

4 - Associar o cristianismo ou outra religião à vontade da maioria é pura demagogia. Na verdade os exemplos de intolerância extrema que conheço vem de pessoas completamente dissociadas da religião.

5 - Usar o termo "imbecis" é próprio de quem realmente pode ajudar á mudança de mentalidades. Embora se pensarmos bem, as sociedades realmente só mudam à força. Resta é saber se é esse o legado pretendido.

PS - Vamos ver se isto é publicado.


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