Domingo, 21 de Fevereiro de 2010

Vivi, até aos 17 anos, na Madeira. O Direito trouxe-me para Lisboa e lá ficaram, até hoje, os meus pais, tios, primos e amigos de uma vida inteira. Estava calmamente desinformada quando me ligaram, aqui de Lisboa, a dar conta do que se passava e a perguntar pelos meus. Nesse momento, começou uma epopeia de tentativas de telefonemas e de contactos que, de tão distantes da rotina, pareciam encenados, como que parte de uma outra realidade.

 Os pais, imediatamente contactáveis, narravam coisas que julguei impossíveis. Fui acompanhando no twitter (já que, nas primeiras horas, poucos meios de comunicação convencionais davam informação regular sobre o que se estaria a passar). Contagem crescente de mortos, populações isoladas, pessoas que perderam quase tudo e uma sucessão de imagens que me esforço por reconduzir a locais conhecidos.

Sei que a casa de uma amiga no centro da cidade onde fizemos tantas festas e jantares tem agora vista e saída directa para um mar de lama; que o Teatro Municipal, que acolhia também um dos bares mais interessantes da noite madeirense, foi totalmente inundado e que o sítio onde a minha mãe trabalhou durante anos está inacessível até as águas baixarem.

A nossa casa é numa encosta, num bairro com vivendas cravadas nos rochedos. O acesso a essa zona faz-se subindo a rua 31 de Janeiro e descendo a 5 de Outubro. No meio de ambas, uma ribeira. Se traçarmos uma linha recta da varanda lá de casa para a rua 31 de Janeiro, perceberemos que o bocado de rua que lhe corresponderia ruiu e fez-se leito para a fúria da Ribeira de Santa Luzia. A padaria Marques, onde ia comprar pães de leite com o meu avô, já tinha fechado há muitos anos, mas, desta vez, nem o letreiro austero ficou para me lembrar deles a cada passagem.

 Os madeirenses (e, imagino, qualquer pessoa que tenha nascido e vivido numa ilha) têm uma relação peculiar com a natureza. Admiram-na, na sua grandiosidade, mas aprenderam a negociar com ela. Amam o mar e respeitam-nos, como a um severo decano, mas vêem nele, ao contrário da claustrofobia que os não locais descrevem, o início de um imensidão de possibilidades.

Nunca ninguém tinha visto nada assim naquela ilha. Nunca senti nas pessoas tanto medo da água que, naquela ilha, está por todo o lado. Não há nada tão estranho como vermos as memórias de uma vida inteira cobertas pelo limo e pela desolação.

 



publicado por Laura Abreu Cravo às 11:20
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Comentários:
De Francisco Castelo Branco a 21 de Fevereiro de 2010 às 20:17
Agora toca-nos a nós portugueses, e em especial aos madeirenses.

É bom também saber que outros paises nos dão cumprimentos e querem ajudar.

Sinónimo de gratidão.

as especificidades da ilha são terriveis


De Isabel Moreira a 22 de Fevereiro de 2010 às 11:15
Um beijo, Laura


De José António Abreu a 22 de Fevereiro de 2010 às 11:26
...


De zmoniz a 22 de Fevereiro de 2010 às 13:06
Imagino o que possa estar a sentir neste momento. A mim, levou-me o direito dos Açores a Coimbra e, de novo, aos Açores. Não posso deixar de recordar, quando confrontado com as imagens chocantes da baixa do Funchal, as enxurradas ocorridas na freguesia de Ribeira Quente, nesta Ilha de São Miguel, que ceifaram então 74 vidas. Só mesmo quem vive em ilhas conhece bem a força e os caprichos da natureza...


De AG a 22 de Fevereiro de 2010 às 13:17
Estive lá na altura em que andavam a testar quem ganhava o contrato do fogo do fim de ano, estacionei no Dolce Vita e percorri o resto a pé até ao calhau. Nada disso resta, está tudo destruido e é de facto inacreditável que se tenha vindo um tsunami do pico do areeiro.
Acredito porém que se vai ter mais cuidado nas construções nos leitos das Ribeiras, e sobretudo no escoamento das águas que atingiram velocidades inacreditáveis aos virem a engrossar de tão alto, com lama e calhaus...
Há calhaus por todo o lado. Nenhum dos meus amigos e familiares sofrerem directamente danos. É o meu único alivio.
Haverá festa da flor?


De middlemay a 22 de Fevereiro de 2010 às 19:40
Vivi na Madeira de 1983 a 1996. Criei muitos laços de amizade que ainda preservo e um fascínio muito especial por muitos dos recantos que calcorreei. É-me muito doloroso neste momento ter que perguntar onde anda Deus então?
Uma tragédia de contemplação insuportável!


De Miguel Reis a 26 de Fevereiro de 2010 às 22:01
Obrigado Laura pelo teu post.


De pocketfullofsunshine a 7 de Março de 2010 às 16:10
Não por Direito mas também para estudar saí da Madeira e me encontro no Porto. E foram, sem dúvida, momentos de terror assistir a tudo aquilo pela televisão sem saber nada da minha família :(
Mas agora é com orgulho de ser madeirense que vejo a lição que aquele povo nos dá: a união é invencível!
Gostei muito do post...


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