Terça-feira, 24 de Julho de 2007
Sem memória

Tenho vários amigos em processo de separação dos respectivos consortes. Casados, namorados de longa data, arranjinhos mais ou menos fixos, amizades coloridas, gente que se limita a partilhar o espaço das prateleiras da cozinha; há de tudo — E pelo menos dois terços estão (uns feliz, outros infelizmente) em processo de seguir cada um o seu caminho. Não sem grandes hesitações, não sem reconciliações temporárias e parciais, como os funerais de New Orleans (se não me falha a memória) nos quais, ao som de jazz preto e swingado, se despedem dos mortos com um cortejo onde se dão dois passos à frente e um para trás, prolongando a despedida e atribuindo um toque de languidez à angustia da perda.
E assim se tem passados estes tempos, com telefonemas nocturnos e alternados de cada um dos better half (quando acontece ser-se amigo de ambos), sempre sinceramente doídos e não falsamente convictos quanto à irreversibilidade da ruptura. Depois do exercício de oralidade típico dos amigos que dão um ombro e emprestam uma lanterna para minorar o susto de um caminho escuro adivinhado tornamos a encontrá-los, juntos e sorridentes, numa qualquer solicitação social, como se nada fosse, como se todos nos tivessemos tornado surdos, à data das conversas de antes. Até que elas (as conversas) voltam, e com elas o choro, a decepção, o desalento de ter de reaprender a caminhar sozinho.
É inevitável que fiquemos tristes e sintamos um bocadinho como nosso o fracasso emocional daqueles que nos são próximos, cujas relações afectivas se tornam instituições em vidas que não apenas as suas (afinal, adoptamos mesmo os frutos daquelas relações como se fossem filhos dos irmãos que nunca havemos de ter), mas não podemos deixar de pensar, por um bocadinho, que, no mais das vezes, a durabilidade das relações vem de todo o lado excepto do prazer imediato que elas nos proporcionam. O Homem, criatura de hábitos, prefere a ilusão de conforto de um conhecido que já não lhe aqueça a alma ao perigo iminente da solidão fria ou às amplitudes térmicas do estado de enamoramento, e por isso rumina e retarda o fim das relações já mortas, encetando (numa lógica absurda e autista de fugas para a frente) uma sucessão de novas tentativas, repristinações e recomeços. O problema é que “o recomeço” — esse conceito nobre e luminoso que encobre uma demão de tinta mal enjorcada na nossa parede grafitada de emoções — só funcionaria se pudéssemos, um dia, reencontrar o outro, sem memória.


publicado por Laura Abreu Cravo às 14:43
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Comentários:
De wolfhunter a 26 de Julho de 2007 às 13:02
Laura,

Parabéns por este teu Belo texto...

Nós somos, o que somos, mais a nossa Memória...

Sem a nossa
Memória, mesmo que parcial, nao seriamos os mesmos...

a única forma de mudar uma pessoa..., é alterar a sua m
Memória...

Bj

W.

PS: nao me admiraria no futuro, a comercializacao de produtos para alteracao da Memoria :-P


De SLS a 26 de Julho de 2007 às 02:53
"Conheço-a" há muito pouco tempo. Gostei deste texto algo intimista mas o primeiro texto que li seu e que me chamou a atenção era politico (publicado na Visão) - eleições de lisboa.

Engraçado que realmente verifico que muita gente se está a separar mas cada vez mais sinto que isso acontece por não existirem objectivos de vida partilhados.
Sem algo mais sólido e duradouro que a emoção pura, duas pessoas
dificilmente se irão fundir.
Falta "sense of purpose" em muitas relações.
Sem isso, num mundo muito volatil,
virtual, descarado, "fácil", short-term oriented, "ego"+ista, etc... é muito dificil que as relações não se diluam e que os individuos não se percam.

A nota positiva :) é que está nas nossas mãos a solução para este puzzle. Pode não ser fácil mas apenas depende da nossa vontade!

E aqui volto ao inicio, também na politica penso que cada um de nós tem de perceber que só votando poderá contribuir para que o país (ou a cidade) encontre um caminho.
As pessoas esquecem-se que quem não vota faz outsourcing da decisão (e do cerebro). Simplesmente se está a desresponsabilizar para poder depois criticar à vontade seja qual for o eleito.
Tb na politica está na mão de cada um de nós mudar o status quo... nem que seja influenciando quem nos rodeia para que vá às urnas.
Não votar é fazer birra!
Como ninguem nos vai dar um chupa... mais vale parar de fazer birra e enfrentar a vida LOL!!!


De ISA a 26 de Julho de 2007 às 01:57
muito bem!


De Abelhinha a 25 de Julho de 2007 às 21:27
Fantástico este texto!

Concordo em pleno com tudo que aqui foi dito.

Quando chegou a minha vez de me separar, já com uma filha, durante um curto espaço de tempo também tentei adiar a despedida, mas de um momento para o outro fez-se luz, e achei que quanto mais depressa melhor!


De Manuel Martinho a 25 de Julho de 2007 às 01:57
Dizem que a boa consciência não é mais que uma má memória.


De Pedro Rapoula a 24 de Julho de 2007 às 16:20
Na mouche!

Beijo

P


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