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Mel Com Cicuta

Without the aid of prejudice and custom I should not be able to find my way across the room. William Hazlitt

Without the aid of prejudice and custom I should not be able to find my way across the room. William Hazlitt

Mel Com Cicuta

08
Mai07

not all, but somethings about f. (and me)

Laura Abreu Cravo
Eu reagi ao simpático elogio da f., e agora respondo à não menos simpática provocação:

Aquilo que a f. chama um "bocadinho de modéstia a mais" decorre de um exercício diário que faço de não me levar demasiado a sério. O mundo, pelo menos aquele onde me movimento, está cheio de gente que se leva a sério (uns com mais, outros com menos razões para isso, outros sem razão nenhuma, Deus bem sabe) e isso é uma maçada. Não me levar muito a sério não é modéstia ou auto-castração infligida primariamente por um mundo machista, é apenas um luxo que me permito para manter alguma (pouquíssima) sanidade mental.

No mais, a f. não me conhecendo - e, desse ponto de vista, já vi que temos um longo e agradável caminho a percorrer - não é obrigada a conhecer a minha relação com (1) as mulheres; (2) os blogues e (3) o elogio na divergência de opinião (ou outro).
Começando pelo fim:
(2 & 3) Não achando eu que o mundo gira em torno do meu teimoso umbigo, é natural que me tenha surpreendido com o elogio da f., porque este blogue, de onde lhe escrevo, tem um número limitado e fiel de visitantes que abarca uma faixa considerável de solteiros misantropos deprimidos e amargos. Felizmente, desses outros, não faltam generosos elogios. Nem tão pouco "a inversa seria verdadeira". Imodestamente lhe afirmo que aprendi a viver na biodiversidade ideológica e que, nos dias que correm, é mais frequente ter dificuldade em encontrar razões para elogiar pessoas com quem, à partida, e por princípio, concordaria (sobretudo pela forma lamentável como formulam as suas ideias) do que a f. ou qualquer outro nos antípodas dos meus valores (desde que saibam o que e como estão a dizer). Nos blogues, tal como a f., leio tudo aquilo de que gosto, sem filtro que não a minha sensibilidade gramatical e noção de decoro. Até o maradona, apesar da minha lacuna de formação no que às idiossincrasias maradonianas diga respeito, (quando não fala 3 dias seguidos de futebol) porque aí, confesso - e embora o tema me seja caro- maça-me um bocadinho.
(1) A f., para não ser tida por provocadora, não me acusa de ter o meu quê de homofóbica (coisa que agradeço). Mas devo - não me defendendo porque não fui acusada - afirmar tranquilamente que não padeço do sentimento de repulsa pelos meus semelhantes. Só não acho que é que 90% das mulheres com quem me cruzo diariamente (nos blogues ou na vida) o sejam. Não porque me ache melhor que umas (nos mais das vezes sou pior que outras), mas apenas porque não me revejo naquele planeta, naqueles assuntos, naqueles interesses e vontades. Dir-me-á a f., e, se calhar, com razão, que ando a conhecer as mulheres erradas? Concedo, mas, como deve imaginar, o tempo é cada vez mais escasso e uso o meu para procurar as coisas que realmente me façam falta. Além disso, e recorrendo a um lugar comum que ainda ninguém conseguiu desmentir, é ponto assente que as mulheres são as maiores praticantes e impulsionadoras da misoginia. As mulheres acreditam na lógica de dividir para reinar e, confesso-lhe, nessas coisas, aprecio mais a subtileza napolitana dos tacos de baseball e rótulas partidas. É nessa medida que, em geral, acredito pouco nas mulheres, mas, em especial, sou caninamente leal àquelas que me provam a excepção da regra.
07
Mai07

Do pátio do Liceu - o cantinho dos crescidos

Laura Abreu Cravo
A terceira coisa melhor dos blogues é, em última análise, como diria o meu amigo PPM, que as coisas deixam de ser apenas uma questão de ideologia e passam a ser, sobretudo, uma questão de bom gosto (e eu acrescentaria o bom senso). Note-se que o facto de alguém ler aquilo que eu escrevo não é sinal de bom gosto (e muito menos de bom senso), mas apenas um exercício de auto-flagelação que alguns (a quem, desde já, agradeço) têm por adequado como caminho para a redenção.
O elogio da f. — tão surpreendente quanto exagerado — só vem provar que: (i) a regra de que as mulheres são incapazes de reconhecer qualidades umas às outras tem excepções; (ii) ainda que se esteja do lado oposto das trincheiras (como foi o nosso caso no aborto, e decerto em muitas outras questões) não deixamos de conseguir olhar para além da soleira da porta lá de casa e (iii) quando nos identificamos com um registo de escrita, não tem de se concordar com tudo o que lá esteja para se gostar.
Embora, às vezes, nos deixe doentes e com formigueiro nos dedos, nesta casa gostamos de ler a f., nem que seja para discordar. Obrigada, então.
07
Mai07

Uma recensão emocional

Laura Abreu Cravo
A meio do livro que ocupa o topo da minha lista de prioridades na pilha da cabeceira - Glória, do incomparável VPV - percebo algumas coisas sobre a vida:
(a) já me cruzei com, pelo menos, um Vieira de Castro;
(b) O que perde homens assim não é serem crápulas (porque, na verdade, nem o são), é serem tolos inteligentes (enganam-se os que acham que as duas características são incompatíveis)deslumbrados com eles mesmos;
(c) temo que, quando acabar de ler o livro, dou por mim a achar que corria o risco de acabar casada com um assim.
03
Mai07

My funny Valentine V

Laura Abreu Cravo
Não chorava há muitos meses. Não porque achasse essa uma manifestação pirotécnica e desnecessária de sentimentos mas porque era um alívio e ocasional alheamento nunca permitidos por aquele espírito. Ouviu as crueldades, as simpatias, as declarações de amor, as muitas mentiras nas quais deixou que pensassem que acreditava, viu construir-se a felicidade efémera e destruir-se verdadeira depois. Perdeu e recuperou mais tarde alguns dos que amava enquanto via seguir outros sem que os tenha podido demover. Tudo sem uma gota daquela solução salina morna e libertadora. Tinha a cara tão fria como algumas partes do resto que insistiam apontar-lhe como a causa do fracasso de ambos que sempre seria só dela. Um dia, por nada, agarrada a um livro cuja história não lhe passava sequer na periferia da alma sentiu um calor cortante e os olhos opacos enublados vomitaram lágrimas durante horas. E depois disso? Ficou tudo na mesma.

Em baixo, clicar para ouvir toda uma vida.

02
Mai07

...

Laura Abreu Cravo
Nos quotidianos exercícios de linguagem servimo-nos, com frequência, da enumeração. Por minúcia, método organizativo, ou obsessão-compulsão, enunciamos uma a uma as partes de um todo. Não é, todavia, raro que se veja um autor servir-se do primeiro número sem que este venha, depois, a ser secundado por elementos adicionais. Quantas vezes vemos um “primeiro” fragmento discursivo que — como aqueles que insistem nos irritantes beijinhos siameses na face (que obrigam ao dispensável e pouco prático jogo de narizes) — fica ali, pendurado e sem par?
Na maioria dos casos creio que o autor achava, genuinamente, que o primeiro corpo seria seguido, pelo menos, de um segundo e este, eventualmente, de um terceiro (e por aí fora). Mais do que de matemática, uma questão de optimismo. Afinal, quando falamos do nosso primeiro amor, quantos de nós tem algo mais definitivo ou inilidível do que a mera esperança que tudo aquilo se vá repetir (uma ou mais vezes)?
01
Mai07

Dos clássicos

Laura Abreu Cravo

Num mundo ideal (para outros), sem lugar para a maldade e para o cinismo, isto de que vos vou falar agora não existe.
Imaginem o que é passar os dias como se fossem um taxista Argentino recém-chegado à Bélgica. Que nunca tiveram uma aula de Francês (ou Flamengo). Que passam os dias a divagar por caminhos desconhecidos, entre o sinuoso e o monocromático. Que, recorrentemente, dão por vós a fazer um esforço entre inútil e o propositada e orgulhosamente desajeitado para se fazerem perceber e para descortinar o que os outros vos queiram transmitir. Tudo isto, com raras excepções, resulta, amiúde, em desencontros, gafes, mal entendidos, surdez crónica e um alheamento desinteressado em relação ao um mundo que insiste em continuar sem nós. E agora imaginem a alegria confortada e estarrecida de ver entrar nesse táxi ordeiro e burocrático alguém que não só fala o mesmo dialecto espanhol que se ouvia na nossa distante aldeia natal mas que, além de tudo, conhece os nossos caminhos.
Ao que acontece, neste momento que descrevi, chama-se reconhecimento. A isto, amadurecido pelo respeito e admiração mútuas e temperado com uma cumplicidade cruel e uma sinceridade provocadora, chama-se amizade. Porque, aos 75 anos, é uma maçada até que se encontre alguém com quem se queira partilhar a mesma frisa para assistir ao passar dos dias. Obrigada.

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