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Mel Com Cicuta

Without the aid of prejudice and custom I should not be able to find my way across the room. William Hazlitt

Without the aid of prejudice and custom I should not be able to find my way across the room. William Hazlitt

Mel Com Cicuta

20
Out07

Dicas de viagem

Laura Abreu Cravo
Sempre que fizer a mala para uma partilha de vida, para um momento ou fracção regados a ternura e entusiasmo, tenha o mesmo cuidado de, no regresso, trazer de volta o exacto conteúdo das suas bagagens. Não há nada pior do que estar pronta para sair para jantar e descobrir que a única mala que vai bem com aqueles sapatos ficou esquecida noutra casa, juntamente com os restos da vida que se tenha tido por lá.
19
Out07

Faz conta

Laura Abreu Cravo
Lembro-me, como se fosse coisa destes dias passados, das palavras da D. Rosa, empregada da casa desde os meus 7 meses de idade. Eu tinha, na altura, 14 anos e vivia os primeiros amores e entusiasmos. Pela casa, um corrupio de adolescentes, primos e amigos e filhos de amigos dos pais, que ela conhecia e tratava por meninas e meninos. Foi madrinha e cúmplice de muitas primeiras descobertas, fingiu não ver muitos dos primeiros disparates daquela turba doce mas bárbara que lhe entrava casa adentro. Um dia, vendo no rosto de uma das suas meninas as lágrimas gordas vertidas pelo primeiro desgosto de amor, olhou-a ternamente enquanto lhe limpava a cara com as costas das mãos ásperas cheias de rugas e disse:
--Ele fez a menina chorar? Faz conta foi para a guerra e tá morto!
E correu a fazer um bolo, daqueles para molhar no leite.
18
Out07

...

Laura Abreu Cravo

 

O importante, quando se vive no circo, mesmo que seja para ser só palhaço, é a rede de segurança.

15
Out07

...

Laura Abreu Cravo
O Tiago Mendes — que, garantem-me amigos comuns (e eu, por princípio cristão, acredito) é bom rapaz — fez mais um dos tours evangelizadores a esta casa. E eu, apesar de espartilhada pelo princípio cristão da tolerância, não resisto aos maus impulsos afinal tão humanos, e não vou oferecer a outra face. Caro Tiago, é sempre um prazer recebê-lo, mas, confiando na sua sensibilidade a par do seu bom senso, peço-lhe que, da próxima vez que cá vier, atenda o rogo de uma pobre humilde católica (pouco versada em filosofia, mas ainda menos dada à hipocrisia relacional) e leia, até ao fim, o que quer que eu tenha escrito (se lhe aprouver, ou, ao menos, nos casos em que pretenda vir a escrever sobre isso).
Neste excerto do meu texto, que o Tiago acusa de ser “levemente Nietzschiano” há uma, achava eu que bastante clara, referência à excepção que, para o caso, releva. A minha desconsideração pelo instituto da piedade (que o Tiago, nitidamente aprecia e entende melhor que eu) reside apenas em achar que a sua aplicação a quem de facto, não necessite, é tão desnecessária quanto ofensiva. Assim, “a menos que se trate daqueles que perderam até a possibilidade de lutar(…)” parece-me sempre mais importante o incentivo e a manifestação de apoio por qualquer outra forma admitida ou prescrita no novo testamento. Significa isto que ando pela rua a pontapear órfãos e rasteirar mutilados de guerra? Parece-me que até o Tiago — que não me conhece e declara não saber que credos professo — responderá instintivamente que não. E bem. Aquilo que eu defendo (arriscando a possibilidade de ser consumida pelo fogo e pelo cheiro a enxofre durante toda a eternidade) é que a Piedade deve ser usada com parcimónia e pouco alarido, deve ser devotada a quem realmente necessite e seja digno dela e não tornada inútil pela sua generalização abusiva.  Aquilo que eu disse, Caro Tiago, é que (i) nunca tratos os meus com piedade (porque os realmente meus, como eu própria, nunca me perdoariam tal coisa) e (ii) deixo a piedade, numa perspectiva generalista e de relacionamento social, para os realmente necessitados. Usar a piedade na lapela é coisa de católico que vai à missa só para ser visto em roupa de Domingo e eu não aprecio a espiritualidade possidónia.
11
Out07

...

Laura Abreu Cravo
Henrique, essa conversa de que o mesmo bons não precisam do Nobel para nada, além de (do ponto de vista do valor intrínseco do escritor) verdadeira, é muito bonita, mas não consola. Se o Nobel não serve para reconhecer os melhores, serve para quê? Se não for para isso, mais valia mandar os ilustres membros da coisa sueca fazer potes.
11
Out07

Se até o Saramago tem um

Laura Abreu Cravo

 

Antes do anúncio, previsto para daqui a algumas horas, do vencedor do prémio Nobel da Literatura de 2007, aproveito para partilhar algumas opiniões:
O caro leitor já alguma vez teve dificuldade em sair da casa de manhã, não pelo sono, pelo frio ou pela chuva, não porque a sua better-half estivesse ainda languidamente estendida na cama, não porque o dia de trabalho se adivinhava pouco entusiasmante, mas apenas porque queria ficar ali, sentado naquela cadeira, a ler sofregamente, a consumir avidamente página atrás de página de uma escrita brilhante e tecnicamente imaculada?

Eu já. Graças a este senhor que aqui vemos e ao "Conspiração contra a América" que vai a meio. É a minha declaração de voto.

10
Out07

Essa senhora não mora cá.

Laura Abreu Cravo
Não sei movimentar-me naquilo a que chamam piedade. Não sei sequer como funcionar nesse registo. Não tenho particular simpatia por animais bonacheirões ou criancinhas enternecedoras e gosto dos velhos porque a longevidade lhes deixa vincada na cara uma dureza respeitável. Não me comovo com aleijados ou vítimas de qualquer adversidade que se tenham acomodado à condição, não sou condoída da humanização dos touros, só não uso peles verdadeiras porque estão pela hora da morte (aceito os animais em vias de extinção como fronteira de bom senso) não me deixo enternecer por desistentes, gente que se abandonou. Admiro os que são capazes de, em circunstâncias desfavoráveis e sem heroísmos carnavalescos, devolver-se à normalidade e seguir em frente. Porque ultrapassar obstáculos e matar fantasmas sem, na medida do possível, maçar o próximo, é uma obrigação nossa. O incentivo e o carinho servem-se sem paternalismos e vitimização (em tudo redutores). Dito isto, é óbvio que abraço até fazer doer aqueles de quem gosto, partilho alegrias e tristezas com os meus e tento lembrar, a cada um, que o facto de me ser indispensável, não tendo peso no mundo, faz dele uma espécie de “humanidade gourmet”, com especificidades de paladar não acessíveis a todas as bolsas e não apreciadas unanimemente.  
Mas quando me falam de piedade, a menos que se trate daqueles que perderam até a possibilidade de lutar, fico algures entre a perplexidade e o nojo. E fecho a porta. Essa senhora não mora cá.

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