Acordo. Arrasto-me para o bule de chá preto a ferver. Sento-me à secretária e ligo o MAC que, preguiçoso como eu, se espreguiça ante os primeiros raios do sol que o arrastar pesado dos cortinados deixa espreitar. Abro a página do blogue e sigo para a moderação de comentários. Entre os rotineiros convivas, algumas visitas da casa, visitantes acidentais e de ocasião e bloggers que chegaram através de outros blogues. Piadas privadas, simpáticos elogios ou observações cordatas e factuais. Assim era o acordar deste blogue. Depois, com os leitores, além dos amigos ou dos cúmplices desconhecidos, chegaram os insultos. Todos os dias, aqui, ali e além.
Algumas pessoas garantem-me que, pelo facto de ter escarrapachado os meus escritos num blogue, assumi e aceitei o risco de ser insultada, e, adicionalmente, assenti num direito da contraparte a esperar a minha resposta. Ah, a tão considerada “polémica”. Com as caixas de comentários ou os próprios blogues por veículo a turba insulta-se, desconsidera-se, esgrime imbecilidades e relê, embevecida, os textos que reflectem a sua própria bílis.
É claro que respondo a provocações. Quando acho graça, quando o interlocutor é inteligente e elegante, quando o assunto me é particularmente caro. No caso do insulto nem apetece. Como é que se elabora sobre o insulto (quando, na maioria das vezes traz roupagens toscas e literais, sem ponta de graça)?
Que me desculpem os estudiosos da antropologia bloguística que defendem o direito do leitor decorrente da alienação gerada pela publicação do post. Que se lixem. No meu blogue escrevo e respondo na exacta medida do que me apetece. O único direito do leitor é não ler, não entrar, não clicar no link, pendurar alho e crucifixos no seu próprio monitor, atirar fruta podre ao meu template. Mas sem lições de moral (que maçam), sem fúrias evangelizadoras (que adormecem), sem tolices adolescentes (que enfastiam). O insulto, bem feito, não é uma selvajaria de boca cheia, é um intrincado de subtilezas, um rendilhar de ironias, um sussurrar sibilino mas gélido ao ouvido.
Um amigo diz sempre que temos de aprender a escrever “sem qualquer respeito pelo leitor”. E eu respeito isso.