Verdade ou consequência

Tenho um amigo que defende que os rejeitados ganham, no momento do repúdio, direito a tudo o resto. Que podem afastar-se do outro, rosnar-lhe até ao fim dos tempos, mudar de passeio quando se cruzarem na mesma rua, cuspir na sopa do outro, barrar-lhe com manteiga a calçada portuguesa à porta de casa na rua inclinada.
A expurgação do pecado de ter dito “não” leva tempo. Concedo. À partida, quem tem o domínio do facto estará em melhores condições para lidar com as consequências do que aquele que está ocupado a tentar sobreviver à dor de cotovelo. E também me parece óbvio que a transformação do desejo em despeito é um percurso natural para atenuar fragilidades.
Só me parece que das prescrições permitidas deverá estar claramente excluída a mentira. Que o infeliz queira fazer vudu com a fotografia da contraparte faltosa eu até percebo. Que enforque o outro nos seus desenhos vezes sem conta, que o odeie por não querer. Mas não minta, não dissemine inverdades criando de si a imagem da pureza preterida. Porque preterir o indesejado não significa preferir o mal ao bem. Quando o enjeitado mente, não odeia o outro: odeia a verdade. A verdade que, a partir daquele momento, é a da sua pequenez.
