Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Mel Com Cicuta

Without the aid of prejudice and custom I should not be able to find my way across the room. William Hazlitt

Without the aid of prejudice and custom I should not be able to find my way across the room. William Hazlitt

Mel Com Cicuta

11
Mar10

Uma questão de justiça e não de saias

Laura Abreu Cravo

Agora que sobrevivemos todos à esmagadora grandeza do dia, deixem-me dizer umas coisinhas sobre o dia da mulher. Eu percebo que o dia da mulher exista e faça sentido numa tentativa evangelizadora das culturas que tratam as mulheres como seres humanos de segunda. Nesses casos, não tão raros quanto seria desejável, percebo até o feminismo radical e a queima de roupagens intimas.

 

Aquilo que me deixa com os nervos em franja, é uma geração de furiosas feministas que vive  e toda a vida viveu protegida na redoma da cultura ocidental e burguesa, mas que passa o dia a guinchar-me aos ouvidos que é muito mulher (obrigada, mas passo) e que é de si e não precisa dos outros e dos machos e rais-parta-os-reaccionários e que as mulheres de direita (que não estão para berrarias) são só mais umas que — coitadas — são assim a dar para o acéfalo e foram formatadas para acreditar na sua própria diminuição sob a forma de cultura.

Primeiro, sempre desconfiei muito das pessoas que sentem necessidade de gritar muito para afirmar os seus propósitos, depois, sempre encarei com naturalidade e prazer o facto de ser mulher, mas nunca senti necessidade de fazer disso uma questão central da vida de alguém que não de mim mesma.

Já tive oportunidade de dizer aqui o que achava sobre o inefável sistema de quotas, e parece-me que, num país e numa sociedade como a portuguesa, festejar o dia da mulher com grandes cânticos diz mais sobre a nossa parca noção do ridículo do que sobre a nossa noção de igualdade.

Falar-me-ão da violência doméstica em Portugal, da necessidade de reformar mentalidades e promover a igualdade. O problema é que a violência doméstica não é um problema de igualdade, é um problema de justiça. De termos um sistema judicial lento e inoperante, que permite a permanência dos agressores junto das vítimas e cria uma consciência de absoluta impunidade legitimadora do agressor. Mas isto, caros leitores, não se resolve com dias em que nos gritam parabéns logo de manhã só por termos um útero. Resolve-se com uma reforma profunda do sistema penal.

O dia em que os filhos da mãe que tratam as mulheres como sacos de pancada apodrecerem na cadeia e forem arrastados para uma cela sem ter tempo sequer de lhe dar mais um enxerto de pancada para despedida, fará mais pelas mulheres do que todos os soutiens queimados deste mundo.

04
Mar10

...

Laura Abreu Cravo

Não gosto de ter de admitir que me enganei em relação a uma pessoa, mas, às vezes, isso acontece. A bem da verdade, creio que não cheguei, de facto, a estar enganada, porque isso pressupõe a existência de um erro. Não houve erro nenhum, mas tão-só uma análise continuada de risco.

 

Digamos que, confrontada com uma criatura na qual, à partida, vislumbrei aptidões mais do que suficientes para vir a comportar-se pobremente, escolhi correr esse risco. É uma forma de defesa como outra qualquer: identificar o perigo e escolher viver com ele ao lado para poder monitorizar os avanços e recuos, analisar as estratégias e (em segredo) divertir-me infinitamente com a mendicidade e falhanço de cada um dos planos ineptos. Os vermes nunca serão capazes de identificar a sua improficiência para passar de ladrões de galinhas a génios do mal. Até para reconhecer o absoluto falhanço é preciso ter capacidades cognitivas que não estão ao alcance de todos.

25
Fev10

Memória de elefante

Laura Abreu Cravo

A memória é o nosso grande educador. O repositório de um conjunto de experiências e vivências e, anos depois, a fotografia mental (mais ou menos nítida) dos efeitos causados pelo impacto dessas mesmas experiências e vivências. Por isso, nunca esqueço.

Quando alguém nos faz passar por uma experiência ou vivência que justifica a produção (e consequente reprodução), a espaços, de uma memória específica, essa pessoa passa a ser parte num processo que, em alguma medida, produziu uma alteração ao curso normal da nossa vida e à formação linear da nossa personalidade.

Depois daquele momento, somos tudo o que fomos até ali e mais o que acaba de ser inscrito no nosso registo mental por via daquele caso concreto. É esta a razão pela qual não admito, nem aceito, que as pessoas, em vez de assumirem total responsabilidade pelo impacto dos actos que tenham originado, tentem fingir que nada aconteceu e retomar as coisas (e a convivência) do ponto imediatamente anterior.

Quem me trama, também me educa e, um dia, eu vou querer agradecer os conhecimentos adquiridos. Podem apostar que vou.

24
Fev10

Estou a fazer o melhor que posso

Laura Abreu Cravo

 

Na semana em que resolvi fazer ressurgir o Blogue deu-se uma catástrofe natural, o defunto direito financeiro ressuscitou-me nas mãos avariando-me a vida e o MEO empanou levando consigo a televisão e a possibilidade de postar a partir de casa. Pelo sim, pelo não, achei melhor ir comprar um vestido de Verão na minha hora de almoço.
21
Fev10

...

Laura Abreu Cravo

Vivi, até aos 17 anos, na Madeira. O Direito trouxe-me para Lisboa e lá ficaram, até hoje, os meus pais, tios, primos e amigos de uma vida inteira. Estava calmamente desinformada quando me ligaram, aqui de Lisboa, a dar conta do que se passava e a perguntar pelos meus. Nesse momento, começou uma epopeia de tentativas de telefonemas e de contactos que, de tão distantes da rotina, pareciam encenados, como que parte de uma outra realidade.

 Os pais, imediatamente contactáveis, narravam coisas que julguei impossíveis. Fui acompanhando no twitter (já que, nas primeiras horas, poucos meios de comunicação convencionais davam informação regular sobre o que se estaria a passar). Contagem crescente de mortos, populações isoladas, pessoas que perderam quase tudo e uma sucessão de imagens que me esforço por reconduzir a locais conhecidos.

Sei que a casa de uma amiga no centro da cidade onde fizemos tantas festas e jantares tem agora vista e saída directa para um mar de lama; que o Teatro Municipal, que acolhia também um dos bares mais interessantes da noite madeirense, foi totalmente inundado e que o sítio onde a minha mãe trabalhou durante anos está inacessível até as águas baixarem.

A nossa casa é numa encosta, num bairro com vivendas cravadas nos rochedos. O acesso a essa zona faz-se subindo a rua 31 de Janeiro e descendo a 5 de Outubro. No meio de ambas, uma ribeira. Se traçarmos uma linha recta da varanda lá de casa para a rua 31 de Janeiro, perceberemos que o bocado de rua que lhe corresponderia ruiu e fez-se leito para a fúria da Ribeira de Santa Luzia. A padaria Marques, onde ia comprar pães de leite com o meu avô, já tinha fechado há muitos anos, mas, desta vez, nem o letreiro austero ficou para me lembrar deles a cada passagem.

 Os madeirenses (e, imagino, qualquer pessoa que tenha nascido e vivido numa ilha) têm uma relação peculiar com a natureza. Admiram-na, na sua grandiosidade, mas aprenderam a negociar com ela. Amam o mar e respeitam-nos, como a um severo decano, mas vêem nele, ao contrário da claustrofobia que os não locais descrevem, o início de um imensidão de possibilidades.

Nunca ninguém tinha visto nada assim naquela ilha. Nunca senti nas pessoas tanto medo da água que, naquela ilha, está por todo o lado. Não há nada tão estranho como vermos as memórias de uma vida inteira cobertas pelo limo e pela desolação.

 

20
Fev10

Saudades de casa

Laura Abreu Cravo

Esta casa andou votada ao abandono. Há um mundo do direito que nos absorve e sufoca (e, ao mesmo tempo, nos prova, a cada dia, que não poderíamos ser uma coisa diferente) e há a vida, essa amálgama de coisas boas e más e assim-assim. Adicionalmente, dá-se o caso de esta signatária ser umas das 15 pessoas em todo o mundo que teve problemas técnicos com um Macintosh. E comprar um PC é uma coisa muito difícil. Primeiro, porque, na sua larga maioria, são esteticamente ofensivos; segundo, porque a relação com os especialistas padece de deficiências prévias insanáveis que impossibilitam qualquer troca de mensagem frutífera.

Senão vejamos:
Pessoa que tenta comprar o computador: — Olá, boa tarde. Eu precisava de comprar um PC que seja adequado para alguém que trabalha sobretudo com office, i-tunes, internet e afins.
Senhor da Fnac/ Vobis/ Worten: — Com certeza, termos aqui estes muito bons que (blá-blá-blá-bites e bites), com processador blá-blá e placa gráfica blá-blá-blá e memória ram yada-yada (isto dura cerca de 4 minutos)…
Pessoa que tenta comprar o computador: — tudo isso me parece óptimo, mas não tem nada que tenha todas essas características e seja … err… bonito?
Senhor da Fnac/ Vobis/ Worten: *rosna* (e quase juro que consegui ouvir um “gajas” entre dentes).
Felizmente, há oferta para tudo desde que se esteja disposto a pagar e, na terça-feira passada, adoptámos um Vaio. Isto para vos dizer, leitores, que, em podendo, voltarei a ser frequentadora assídua do meu próprio blogue.
07
Jan10

E já que falámos do sagrado instituto do matrimónio

Laura Abreu Cravo

Quantos daqueles senhores simpáticos e anónimos que vieram cá dizer que eu devia ser excomungada e ostracizada pela Igreja Católica por defender o casamento civil e adopção de crianças por casais homossexuais é que estão dispostos a ter uma conversinha franca sobre o adultério, hun?

Bem me parecia.

É que eu vou precisar de parceiros para o Bridge quando estiver a arder no Inferno por não querer discriminar pessoas pela sua orientação sexual, está bem?

 

Mais sobre mim

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Laura Abreu Cravo

Em@il

Arquivo

  1. 2011
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2010
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2009
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2008
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2007
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2006
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2005
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D